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O Censo Agropecuário na Era da Informação e das Mudanças Climáticas

manifesto da SOBER pela revisão do cancelamento do Censo Agropecuário 2016


Foi com surpresa que a comunidade científica do Brasil ligada às ciências agrárias, rurais e tecnológicas, assim como os agentes públicos e privados, receberam a notícia do corte orçamentário que resultou no cancelamento da realização do Censo Agropecuária 2016, que já estava em curso no IBGE, inclusive com a abertura de edital para contratação de pessoal.


Como cientistas e cidadãos, gostaríamos de nos manifestar em favor da revisão desta decisão e solicitar o empenho dos agentes políticos e das autoridades competentes do poder Executivo (Ministério do Planejamento) e do Legislativo, especialmente, a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) do Senado da República e a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR), da Câmara dos Deputados, para sua reversão.


O Censo Agropecuário é um instrumento absolutamente fundamental para conhecer, planejar e incidir sobre a agricultura, o agronegócio e a sociedade rural do Brasil. Sua realização, neste ano de 2016, assume uma importância decisiva não apenas pela necessidade de se dar continuidade aos registros de informações iniciados em 1920 e desde então repetidos, mas sobretudo pelo fato de que o interstício entre 2006 e 2016 cobre um período de transformações profundas e estruturais do nosso meio rural, que somente com dados censitários poderão ser adequadamente escrutinados e entendidos.


Nos últimos 10 anos foi implementado um conjunto de políticas públicas que mudaram a face do Brasil rural e de sua agricultura. Precisamos saber quais são os efeitos, a intensidade e a abrangência, do processo de expansão do agronegócio para novas áreas de produção, como o MAPITOBA. Precisamos compreender melhor os impactos das políticas públicas para grandes e pequenos produtores familiares, especialmente do crédito agrícola, que se ampliou sobremaneira. Precisamos conhecer melhor as repercussões das tecnologias agropecuárias, tanto sobre os fatores de produção como sobre a renda e as receitas das famílias. Precisamos de dados e informações para detalhar a diversidade socioeconômica e compreender as performances produtivas e tecnológicas dos diferen tes estratos de produtores.


Sem dados e informações fidedignas, levantadas de forma judiciosa e cientificamente estribada, será impossível comparar o momento atual com o passado, seja recente ou mais longínquo. Corremos o risco, e isto é muito grave, de estarmos cometendo erros e persistirmos, de sermos pouco eficientes ou perdulários com recursos públicos aplicados na forma de políticas de incentivos que poderiam ter outro destino, indo para onde são mais necessários. 


Adentramos no século 21, definido por muito como a era da informação. Mas para que a informação possa ser utilizada de forma a orientar corretamente as decisões econômicas e produzir cidadãos mais reflexivos, é preciso que os dados sejam coletados, sistematizados e adequadamente tratados. Na agricultura e no mundo rural, não há nenhuma outro instrumento que possa substituir o Censo Agropecuário, que é a base de dados mais fidedigno e abrangente.


A realização do Censo Agropecuário de 2016 assume um papel ainda mais destacado em face do contexto das mudanças climáticas que já estão em curso e deverão afetar sobremaneira a vida das pessoas e da economia rural e agropecuária em especial. O setor agrícola é particularmente sensível ao clima e suas variações.  A disponibilidade de informações sobre o uso da terra, da água e da biodiversidade, assim como as emissões de gases advindos da produção agropecuária, serão vitais nas negociações políticas e comerciais internacionais em um cenário de compromissos e acordos definidos nos marcos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, lançados em 2015 pela ONU e dos quais o Brasil é signatário.


O Censo Agropecuário não deve ser visto como um gasto ou uma despesa. O Censo Agropecuário é um investimento, um recurso comparável a um adubo que pode potencializar colheitas. Produzir mais e melhor ou fazer mais com menos, são fórmulas práticas e tácitas usadas pelo agricultores em seu cotidiano, aos quais a ciência deu estatuto metodológico permitindo que através do conhecimento e da razão se superem o imediatismo e a obtusidade.


Mas tudo isso depende de informações, depende do trabalho minucioso e continuado empreendido pela equipe responsável pelo Censo Agropecuário. Somos testemunhas desse esforço, da seriedade e empenho com que o IBGE tem se debruçado a esta tarefa. O último Censo Agropecuário de 2006 foi alvo de escrutínio de vários estudiosos, servindo de base para várias publicações e livros científicos. Mas o Censo Agropecuário também é essencial ao planejamento das contas nacionais e para a definição das ações estratégicas da EMBRAPA, dos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do Desenvolvimento Agrário, do Meio Ambiente, assim como das empresas do sistema estadual de extensão e pesquisa, das Universidades brasileiras e de organi smos internacionais, como a FAO, o FIDA, o Banco Mundial, o Programa Mundial de Alimentos, entre tantos outros.


O Brasil é reconhecidamente um país líder nas estatísticas agropecuárias mundiais (em 2013, sediamos o Congresso Mundial de Estatística Agropecuária), nossos técnicos e estudiosos estão ajudando outros países e organizações a ordenar suas estatísticas rurais e agropecuárias. Não podemos passar pelo incômodo de ver comprometidas as nossas próprias estatísticas, o que seria constrangedor e mesmo contraditório.


Somos um país em desenvolvimento e uma economia emergente no contexto dos BRICS. Todos sabemos que o setor agropecuário nacional responde por uma parcela importante do PIB e as exportações de produtos agrícolas são amplamente superavitárias e essenciais a saúde da nossa economia. Não é compreensível e nem aceitável que uma parcela dos recursos gerados deixe de ser revertida para o próprio setor que a gera, mediante o apoio do Estado brasileiro à realização do Censo Agropecuário 2016.


São abundantes e auto evidentes as razões e justificativas para a realização do Censo Agropecuário 2016. Portanto, espera-se que a decisão do corte de recursos que compromete a sua execução pelo IBGE seja revertida.


A Sociedade Brasileira de Economia, Sociologia e Administração Rural, SOBER, uma entidade científica que congrega pesquisadores, cientistas e acadêmicos  brasileiros que se dedicam ao estudo da agricultura e do mundo rural, apelam para que as autoridades competentes e responsáveis revisem a decisão de cancelar a realização do Censo Agropecuário 2016 e que o aporte dos recursos necessários seja provido para que o IBGE possa dar continuidade ao seu trabalho, mesmo compreendendo a atual situação econômica e financeira do Estado Brasileiro. Este corte não faz parte de um ajuste inteligente e o Brasil não pode dar as costas para um setor tão importante para nossa sociedade.    



Prof. Dr. Sergio Schneider, Vice-presidente da ALASRU (Associação Latino Americana da Sociologia Rural)

Prof. Dr. Marcelo José Braga, Presidente da SOBER 

Dr. José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, Secretário Executivo da SOBER


SOBER - SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA, ADMINISTRACAO E SOCIOLOGIA RURAL


 

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